quinta-feira, 15 de julho de 2010

Desespero


Tiro o telefone do bolso e ligo. Desligo, desisto. Ansiedade. Olho ao redor, todos parecem irritantemente alegres em suas conversas. Vazio. Encho uma taça qualquer com um vinho tinto barato. Amargo. Doce era teu gosto na minha boca. Volto para um pequeno grupo que me entretém numa conversa rápida. O tempo se arrasta. Nenhuma chamada recebida. Tento ver através da janela, mas só chove. Eu não queria estar aqui, esse lugar está cheio de gente. Solidão. Vou até o banheiro, olho no espelho e sinto vontade de chorar. Essa noite não. Música alta, todos cantando, rindo e dançando. Máscaras. Tenho que sair daqui, mas ainda é cedo. Tarda a amanhecer e eu quero mais bebida, muita bebida, qualquer coisa que me entorpeça. Toca telefone! Droga! Preciso de drogas, da única que me acalma. Uma overdose de ti. O vinho faz efeito, finalmente, fielmente. Ao redor tudo gira, sensação boa de não sentir (quase) nada. Tudo me falta. Quero me perder, mas tenho que te encontrar, logo. Essa noite sim. Agora. Saio sem me despedir de ninguém, e todos vão perceber. Entro no carro e vejo a chuva cair e escorrer pelo vidro. Vejo teu rosto, olhando para mim. Saudade. Tenho que ir para casa. Dormir e esquecer. Lembro do teu riso. Dói. Ligo o carro e o caminho está incerto. É certo que me perdi, ao te perder. Tudo de novo? Não! Chega de repetir os mesmos erros. Acertei em prosseguir! Dou ré e estaciono em frente a tua casa. Meu coração dispara. A chuva não vai parar tão cedo. Meu coração pára. Vejo-te na janela por uma fração de segundos. Será miragem do deserto que agora é minha vida? Minha boca está seca. Deito no banco de trás e fico olhando para a luz fraca que vem do teu quarto. Quero entrar, te abraçar e beijar e não mais soltar. Largo o freio de mão e penso em ir embora e não voltar, nunca mais. Sempre vou te amar. Eu me odeio por ser tão fraca. Forte ainda é o teu cheiro nas minhas roupas. Cansei. Sento atrás do volante e decido que tudo que existia entre nós acabou. Começo a correr até a tua porta. Antes de eu bater, você abre e...

“Do amor pouco sei e quase tudo espero
Amando eu me acalmo e me desespero”
Cazuza

* texto publicado na Revista Fanzine da Gaveta (Cxs/RS -  julho/2010)

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