sábado, 17 de julho de 2010

Eternal Sunshine of the Spotless Mind


Meu filme favorito, desde a primeira vez que assisti. Talvez porque tenha atendido a todas as minhas necessidades românticas, aliado a uma combinação de elementos completamente louca.
Here we go: Joel (Jim Carrey – na melhor interpretação se sua carreira) e Clementine (Kate Winslet – sempre perfeita) se conhecem. Joel e Clementine começam a namorar. Ambos são solitários, carentes e perdidos. O relacionamento é turbulento. Brigas são constantes. Ela decide acabar e vai além, procura uma clínica onde é possível apagar todas as lembranças que se tem sobre uma pessoa. Bye, Joel. Ele descobre e resolve dar o troco, mas no meio do procedimento em que teria Clementine apagada de sua mente, se arrepende e começa a lutar desesperadamente para salvar a lembrança dela.
É uma estória de amor e de aceitação. O ritmo é lento e ainda assim há muita informação. Não tem uma seqüência lógica, um início-meio-fim. Há que se concentrar um pouco para entender a cronologia da estória. A trilha sonora passa despercebida, mas a fotografia é genial. O que me encanta são os diálogos, cheios de frases que para mim, sempre vão ser inesquecíveis.
Difícil resumir, mas me comove a forma como Joel, no meio da mágoa e raiva, consegue perceber que ama Clementine; e que, qualquer lembrança dela é melhor do que nenhuma. Me enternece a angústia e desespero dela, já sem qualquer memória de Joel, de que existe um vazio que ela não consegue atinar.
Não se esqueça de assistir! Dica: alguém me disse que, acompanhado pela pessoa que você ama é beem melhor!

Confirmação


O início do amor é como um clic. O fim é como um estalo.
Tem essa frase que li uma vez e não sei de quem é: o amor nasce de quase nada e morre de quase tudo. Sim, até o amor mais intenso pode acabar. Ele pode desgastar até se esvair, ou se transformar...seja em uma amizade, em ódio ou desprezo.
Quando e como você descobre que alguém já não te ama mais? Quando o amor acaba? E em que momento percebemos isso? Durante uma briga ou no meio de um beijo? Enquanto se assiste um filme ou logo que acorda? Antes de dormir ou depois do banho?
Talvez não seja uma questão de descobrir e sim sentir. O carinho vai embora e a indiferença toma conta. E a partir daí, não tem mais jeito. Quem não ama não se importa. Acredite. Ou não. Sempre é possível se enganar por algum tempo. Ou muito tempo.
Resumo da ópera: o amor acaba, ou gente acaba com ele...e ele acaba com a gente.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Desespero


Tiro o telefone do bolso e ligo. Desligo, desisto. Ansiedade. Olho ao redor, todos parecem irritantemente alegres em suas conversas. Vazio. Encho uma taça qualquer com um vinho tinto barato. Amargo. Doce era teu gosto na minha boca. Volto para um pequeno grupo que me entretém numa conversa rápida. O tempo se arrasta. Nenhuma chamada recebida. Tento ver através da janela, mas só chove. Eu não queria estar aqui, esse lugar está cheio de gente. Solidão. Vou até o banheiro, olho no espelho e sinto vontade de chorar. Essa noite não. Música alta, todos cantando, rindo e dançando. Máscaras. Tenho que sair daqui, mas ainda é cedo. Tarda a amanhecer e eu quero mais bebida, muita bebida, qualquer coisa que me entorpeça. Toca telefone! Droga! Preciso de drogas, da única que me acalma. Uma overdose de ti. O vinho faz efeito, finalmente, fielmente. Ao redor tudo gira, sensação boa de não sentir (quase) nada. Tudo me falta. Quero me perder, mas tenho que te encontrar, logo. Essa noite sim. Agora. Saio sem me despedir de ninguém, e todos vão perceber. Entro no carro e vejo a chuva cair e escorrer pelo vidro. Vejo teu rosto, olhando para mim. Saudade. Tenho que ir para casa. Dormir e esquecer. Lembro do teu riso. Dói. Ligo o carro e o caminho está incerto. É certo que me perdi, ao te perder. Tudo de novo? Não! Chega de repetir os mesmos erros. Acertei em prosseguir! Dou ré e estaciono em frente a tua casa. Meu coração dispara. A chuva não vai parar tão cedo. Meu coração pára. Vejo-te na janela por uma fração de segundos. Será miragem do deserto que agora é minha vida? Minha boca está seca. Deito no banco de trás e fico olhando para a luz fraca que vem do teu quarto. Quero entrar, te abraçar e beijar e não mais soltar. Largo o freio de mão e penso em ir embora e não voltar, nunca mais. Sempre vou te amar. Eu me odeio por ser tão fraca. Forte ainda é o teu cheiro nas minhas roupas. Cansei. Sento atrás do volante e decido que tudo que existia entre nós acabou. Começo a correr até a tua porta. Antes de eu bater, você abre e...

“Do amor pouco sei e quase tudo espero
Amando eu me acalmo e me desespero”
Cazuza

* texto publicado na Revista Fanzine da Gaveta (Cxs/RS -  julho/2010)

The joke was on me


Já traí e me arrependo. Sinceramente. Se pudesse voltar atrás...mas não posso. Nem consertar a minha imaturidade na época. Quanto mais eu traía, mais me dava conta de que buscava algo que não tinha na relação que estava naquele momento. Então posso dizer que, afinal e no final, tirei proveito dessa situação toda. Erros são para isso, certo? Pra gente aprender e crescer com eles.
Lindo meu discurso, não? Trair tudo bem. Mas...e ser traído?
Dia desses me perguntaram como é a sensação de ser enganado. Pra quem nunca experimentou, aqui vai: dose brutal de humilhação pura, direto na veia. Faz você se sentir inferior e inferiorizado; é um sentimento que te toma, derruba e te acompanha noite adentro. É gosto ruim na boca, dor no coração, veneno no sangue. Não sai da tua mente e pesa na cabeça...rs...bom, você sabe o que pesa.
Resumo da ópera: você ali, achando que está fazendo uma grande coisa, ‘abafando’! Tá podendo, hein? Doce inocência! Do que eu estou falando? Ah, meu amigo! Don’t you know? Nunca te fizeram de palhaço? Nunca te passaram aquela: ‘eu te amo...and you are the only one for me! (certas coisas soam tãooo melhor em inglês, especialmente as ironias!)
Nunca? Mesmo? Tem certeza?
Bom pra você! Agora em português claro, pra você entender bem: my dear, just in case, open up your eyes.

True Blood



Poderia começar definindo que é uma série da HBO sobre vampiros. Mas não é tão simples assim...
Imagine uma cidadezinha no estado de Louisianna, chamada Bon Temps (pronuncie com o que você tiver melhor do seu sotaque francês!), onde existe uma exótica mistura de culturas: negros praticantes de vodu, brancos protestantes, o americano tradicional e republicano, gays e homofóbicos. Tudo isso mesclado com a exótica paisagem sulista norte-americana, com a forte religiosidade e a marcante colonização francesa. Muitos adjetivos pra você? E eu mal comecei.
Pois bem, a estória começa quando os vampiros, encorajados pela recente invenção japonesa de um substituto artificial de sangue, espécie de sangue sintético, resolvem ‘sair do caixão’, ou seja, revelar para o mundo inteiro sobre a sua existência. E vão além, exigem direitos civis e a oportunidade de viver como seres atuantes na sociedade.
Louco? Sim, a princípio nada parece fazer muito sentido. Mas, a sutil presença de piadas e o sarcasmo constante logo nos fazem pensar que a situação não é tão absurda assim. Já vimos isso antes! Sim, o criador da série e homossexual assumido Allan Ball, cria um link com a discriminação contra os gays. Fica fácil perceber, através de sacadas interessantíssimas como: God hates fangs (Deus odeia presas), num trocadilho genial para God hates fags (substitua presas por bixas)!
Então, surpreendentemente, o tema já tão batido da discriminação sexual, ainda que necessário, se torna novo e vibrante. Porém, em True Blood, os gays já não são o maior alvo de discriminação e chacotas, e sim, os vampiros. Porque misturado à repulsa, ao medo dessas criaturas estranhas e intrigantes, existe a atração que eles sempre parecem despertar nos humanos. Nesse caso, a série não foge à regra, os vampiros continuam sendo carregados de erotismo e charme.
O que nos remete ao próximo elemento constante desse programa: sexo. Que é mostrado como um alimento tão vital aos humanos quanto o sangue é para os vampiros. Romantismo? Não. A relação entre os protagonistas: Sookie (Anna Paquin) e o centenário Bill (Stephen Moyer) não chega a ser fria, diria morna, apesar do sexo entre eles ser banhado a sangue e mordidas, o que é ótimo, para variar das eternas cenas de sexo bonitinho entre a mocinha e o mocinho! Contudo, assistindo a segunda temporada, já me pego torcendo para que Sookie ofereça seu lindo pescoço branco para outros caninos.
Na verdade, True Blood é cheio de personagens com fortes elementos vívidos e vivos, e talvez seja isso o motivo do sucesso da série. Todos têm defeitos, escondem segredos, vícios e perversões. Os vampiros, e a morte, vêm completar esse cenário e acrescentar um toque de magia à realidade já surreal de Bon Temps. E muitas vezes, fica confuso saber quem é mais maligno, as estranhas criaturas noturnas ou os dissimulados seres ‘humanos’. Experimente.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Nas entrelinhas



Mesmo que toda a comunicação que tivéssemos com o ser amado fosse verbal, ainda assim ocorreriam falhas de comunicação, pois amamos muito mais do que com o coração, amamos com a razão e com o desejo também. São tantos sinais, tantas direções assinaladas que nos perdemos.
Silêncios podem ser interpretados como indiferença. Palavras com duplo sentido terão múltiplas leituras. Olhares para a direção errada podem significar morte certa. Quando amamos, estamos constantemente atentos ao objeto do nosso amor. Cada detalhe conta. E todas essas informações que recolhemos, se misturam com tudo aquilo que sentimos e se confundem. E nos confundem.
É impossível viver sem amor. E é impossível viver só dele também. Precisamos de praticidade, enxergar que a vida nos chama com suas urgências e monotonias. O conto de fadas, a história romântica pode existir sim, mas ela precisa ser vivida dentro da realidade que nos encontramos. E a realidade fala um idioma tão complexo, que, freqüentemente, nos diz uma coisa e entendemos outra!
Na sua magnífica obra-prima, Saint-Exupéry nos diz que a linguagem é a origem dos mal-entendidos. O Pequeno Príncipe buscava compreensão e discernimento, mas não aquele simplesmente advindo da razão, porque sua jornada durante o livro claramente é guiada pela emoção. E através do seu doce anseio em aprender, ele nos explica que ‘só enxergamos através do coração’; ‘tudo que é essencial é invisível aos olhos’.
Mesmo?
Talvez. Mas amar é muito mais do que sentir. Amar é prover, é ser fortaleza e ao mesmo tempo castelo de areia. Amar é tatear às cegas e saber de cor cada pedaço do corpo amado. Amar é falar com os olhos e enxergar além de lágrimas e sorrisos, é ler nas entrelinhas, é interpretar... ainda que a interpretação nunca tenha sido seu forte!

No time for losers!


Adoro essa frase do Freddie Mercury. No clássico ‘We are the Champions’ ele esnoba, dizendo que não tem tempo para perdedores. E quem tem?
Um loser é um chato.
É aquele cara que, muitas vezes, se acha o tal. É o babaca que fala com uma profundidade falsa sobre um assunto sério. O engraçadinho que faz piadas sem graça nenhuma, e você nem ri para agradar. Aquele idiota verborrágico que aconselha a todos sobre tudo, sustentando um irritante ar de sábio. É o arrogante que te enoja e o coitadinho que te bajula.
Mas acredito, convictamente, que o pior tipo de loser é o invejoso. 
Nada mais desagradável do que a presença de alguém assim, que envenena a tudo e a todos com sua incapacidade de ser feliz com aquilo que tem. E ainda cobiça aquilo que é teu, invejando tua casa, tuas botas novas, teu bom astral. Tem inveja do teu sucesso e da tua namorada.
Porém, sejamos sinceros: a verdade nua e crua é que todos nós fomos, somos ou seremos perdedores, pois, em pelo menos algum momento de nossas vidas vamos experimentar o gostinho amargo da derrota, através da perda de um amor, de uma amizade, ou de algo que tenha valor inestimável. E talvez a forma com a qual lidamos com a derrota seja o que nos separa em diferentes níveis, pois nossas atitudes podem mostrar claramente se somos bons competidores ou não.
Losers são um saco.
Mais do que perdedores eles costumam ser derrotistas. Infelizmente, já que eles não vêm com sensor de alerta de maldade, tampouco com letreiro na testa te avisando que ele ou ela podem ser nocivos a tua felicidade, use bom senso e toneladas de paciência caso seja obrigado a conviver com este tipo de criatura! Um amuleto contra olho-grande também pode ser útil!

O certo e o errado (e todo o resto)



Desde criança nos é ensinado sobre o certo e o errado. Uma das recordações mais antigas que tenho é da minha avó, me contando o clássico Chapeuzinho Vermelho, onde a teimosa menina tinha duas escolhas claras, dois caminhos opostos, e acabava optando pelo mais perigoso. Ainda bem, ou goodbye para uma das melhores histórias infantis de todos os tempos.
Sim, Chapeuzinho Vermelho é uma ótima metáfora para nos alertar, desde cedo, que se formos imprudentes e descuidados, que se escolhermos errado, fatalmente daremos de cara com o perigo e o insucesso, e porque não dizer, até com a desgraça.
Acho que foi Cazuza quem disse que tem o certo, o errado e tem todo o resto. E então? O que a gente faz com todo o resto que não nos foi ensinado? O que a gente faz com o caminho do meio, aquele que acabamos trilhando muitas vezes! E que muitas vezes tomamos, cheios de culpa porque o consideramos errado, ou com um orgulho besta e vazio, porque era “a coisa certa” a se fazer.
Às vezes, aqueles sentimentos não tão nobres assim são os que nos salvam. E, freqüentemente, o amor, o altruísmo e a generosidade não nos recompensam na mesma moeda. Nem sempre o bandido acaba mal, nem sempre o bonzinho tem seu final feliz.  Nossa existência é muito mais do que real, ela é ambígua e surpreendente; ela te puxa pelo pé quando você está voando ou te estende a mão enquanto você rasteja em prantos.
Talvez eu esteja enrolando muito para dizer o que todo mundo já sabe: nada é simplesmente preto e branco. Ser uma pessoa dita correta, não vai assegurar que você seja feliz e realizado. Agir com maldade e desonestidade não é garantia de uma terrível danação no fogo do inferno.
Temos milhares de possíveis caminhos para escolher. Cada circunstância, cada momento na vida é único e, por isso, nossas escolhas devem ir além de conceitos pseudo-cristãos sobre o que é aceitável pela nossa hipócrita sociedade. Não estou defendendo crimes violentos ou abomináveis, mas aquelas pequenas-grandes culpas que, cotidianamente, nos atormentam, e que, afinal, são as que mais pesam.
A nossa jornada nessa coisa fantástica que chamamos de vida é composta por muito mais do que o caminho da esquerda ou da direita. São subidas e descidas, curvas sinuosas, atalhos, avenidas movimentadas e até mesmo desertos intermináveis. E, eventualmente, vamos nos deparar com alguma encruzilhada, onde a direção a ser seguida vai ser uma incógnita até o momento do primeiro passo.

Opostos


O oposto da vida não é a morte. A morte é apenas uma pausa, até que outra vida recomece. O oposto da vida é a ilusão, que nos impede de viver de verdade, viver a verdade; aproveitar os momentos, o agora, como se tudo estivesse prestes a acabar.
O oposto da coragem não é o medo, pois a pessoa mais corajosa do mundo pode encarar o perigo, ainda que com medo no coração. O oposto da coragem é a precaução, que nos impede de arriscar e tentar e buscar.
O oposto da alegria não é a tristeza. A tristeza é uma nuvem escura que vai e vem sobre as nossas cabeças, mas ela passa como se fosse uma chuva. O oposto da alegria é a falta de perspectivas, de esperança. É olhar para o futuro e não enxergar nada.
O oposto da solidão não é multidão. Ainda que num lugar interessante, cercado de coisas bonitas e pessoas interessantes, podemos nos sentir solitários. O oposto da solidão é a plenitude de um amor, qualquer tipo de amor, que preenche a vida e o coração.
Ilusão, precaução, solidão, desesperança são sentimentos que nos acompanham sempre. Fazem parte da nossa existência, ainda que nos impeçam de viver. A parte boa da vida é que tudo, absolutamente tudo, tem seu oposto, e assim, podemos suportar até o nada.

Free as a bird?



Li em algum lugar que a liberdade é uma coisa terrível. Clarice Lispector disse que era pouco. Renato Russo cantou que liberdade é ter coragem.
O que é liberdade então? Desapego, independência ou simplesmente uma habilidade de não se prender ou envolver com maior profundidade?
Eu não sei o que é, nunca soube, nunca fui livre.
Talvez o sentido de liberdade vá muito além daquele envolvendo barras e celas, prisioneiro e carcereiro; além do simples conceito de poder ir e vir quando se bem entender.
Acho que para a gente se sentir verdadeiramente liberto, tem que estar livre de paixões, que é, por sua vez, a coisa que mais nos aprisiona.
Paixão por aprender e por ensinar. Paixão por cozinhar ou por um perfume. Paixão por cinema e por colecionar livros. Paixão por aventura, adrenalina, pelo colchão da tua cama e pelos lençóis macios que embalam teu sono. Tudo isso nos prende, até mesmo a paixão pelo desconhecido te torna um escravo.
Blá blá blá!
Paixão, paixão mesmo é querer alguém loucamente. É desejar. É necessidade física de um cheiro e gosto que só uma pessoa pode saciar. E ao mesmo tempo também é necessidade emocional, é encontrar a paz e a calma apenas com o sentimento de plenitude que um único ser pode te proporcionar. É turbilhão...e depois calmaria.
Paixão. Liberdade.
Conquistar a liberdade plena deve ser algo além da nossa compreensão. Porque somos humanos e mundanos. Que sensação será essa, a de ser livre? Será que se compara àquela que sentimos quando nos apaixonamos? Sensação de queda livre, se jogar sem medo dentro de uma emoção é como eu definiria a paixão. Liberdade, não sei, nunca vi. Nem pagaria para ver.

A alma do outro é uma floresta escura


Em seu novo livro, Múltipla Escolha, Lya Luft cita essa frase, que é de seu poeta favorito, o tcheco Rainer Maria Rilke. A frase me deixou curiosa, me fez pensar, mais do que isso, me fez sentir.
Eu iria além, além de uma floresta escura.
Porque a alma alheia pode ser um deserto onde você vaga por tanto tempo, sem encontrar o que procura, sem se encontrar. E você pode caminhar muito, porque teus pés não vão doer, só teu coração será ferido. Às vezes, dentro dessa alma, vivem sentimentos áridos e duros.  Cultivar ternura, amor e compaixão pode ser tarefa extremamente penosa ‘num deserto de almas também desertas’.
A alma do outro também é um oceano profundo e calmo, mar morto. Você mergulha e nunca mais vem à tona, vai se afogando aos poucos, respira quando pode, enquanto pode e quando acha que finalmente morreu, se vê deitado numa areia macia (‘sand is overrated, it’s just tiny little rocks’), que te faz sentir que o mergulho foi a experiência mais aterradora que já te aconteceu. E você quer de novo, quer mais, quer sempre.
A alma pode ser um céu de brigadeiro, vanilla sky. Você voa docemente, num ritmo tão lento quanto antigo, e o que acontece lá embaixo já nem importa mais. Por que lá do alto, da imensidão, tudo que você quer é seguir cegamente no embalo das asas que te envolvem, aquecem e protegem. Planar, inevitavelmente, até a queda.
A alma do outro pode estar cheia de lama, de barro, de pedaços de pedra. Pode ser suja e fazer com que você anseie por uma espécie de salvação. Algo que vai te limpar e trazer tua inocência de volta, ainda que ela não seja mais tão pura assim. E aí você descobre que a alma é tão mundana como divina. É tão humana que machuca. É tão humana quanto a sua.
A alma do outro é um gramado verde (cheiro de grama recém cortada) num dia quente de verão. Você fica ali ouvindo o zumbido dos insetos, meio que dormindo e sonhando sonhos bobos, mas sem se importar em acordar, porque o que te espera ao despertar é algo bom. É algo que sem qualquer explicação lógica, te traz uma felicidade insuportável, incomparável. Um êxtase que vem não se sabe de onde, e é tão grandioso que te torna humilde.
Tua alma é deserto, lama, grama. Tua alma é céu, terra e mar. Tua alma é a floresta escura que eu sondei, habitei, explorei e me perdi.

Quem inventou o amor, me explica, por favor?



Quem assim como eu, cresceu ouvindo Legião Urbana deve lembrar-se desse verso do Renato Russo, numa de suas músicas mais românticas.
Ao contrário da maioria das bandas que compõe nosso cenário musical atual, a Legião e seu inesquecível vocalista, nos presenteavam com melodias simples e com letras que levavam não tão somente a refletir, mas especialmente a sentir, tamanha era a profundidade de sua poesia.
Alguns anos atrás, vendo uma entrevista que o Renato concedeu para o Zeca Camargo, uma de suas frases me deixou, no mínimo, abismada: “não acredito mais no amor romântico”.
Como assim???
Tuas músicas foram a trilha sonora das minhas primeiras paixonites e das minhas primeiras fossas! Elas embalaram meu espírito e adoçaram meu coração! Como você, logo você, não acredita mais no amor romântico?!
Veja bem, não conheço mais do que você a respeito do Renato Russo, tudo que sei sobre ele foi o que li na imprensa, internet, e algumas eventuais entrevistas que assisti. Nem a sua biografia cheguei a ler! Não sei se era uma pessoa profunda, apaixonada ou seja lá o que for. Mas para escrever o que ele escreveu, e para compor com tamanha propriedade sobre o amor, acredito que ele deve ter amado sim... e muito!
O que teria levado um cara como ele a desistir de viver aquele amor, considerado por muitos, a razão de viver?
Uma grande decepção? Ou muitas?
Não sei. Só sei que ninguém sai ileso de um amor. Ninguém sai igual. Entramos de um jeito e saímos de outro. O amor nos muda, seja para pior ou melhor, mas muda. E, inevitavelmente, no fim, alguém sai machucado. Alguns saem mancando, caminhando com dignidade, outros se arrastando e até saltitando...e alguns saem destruídos. Mas ninguém sai ileso de um amor.
Lamento muito pelo Renato, lamento pela sua morte, pelo vazio de poesia que ele deixou, mas lamento principalmente pelo fato dele ter desistido de amar esse amor. E toda vez que eu lembrar dele, também vou lembrar disso. E, talvez, se o amor tivesse dado certo para ele, no fim de sua vida ele não teria morrido trancado num quarto escuro e só. Na minha mente meio perturbada, sempre pensei que ele morreu também de solidão.
Amor. Decepção. Fim. Que deprê!
Nãooo!!! Eu nunca desistiria do amor romântico, ou de qualquer outra variedade de amor que possa existir.
Que me perdoe o Renato Russo, but all you need is love! All I need is love!
E viva os Beatles!

“Enquanto a vida vai e vem, você procura achar alguém
Que um dia possa lhe dizer: quero ficar só com você...”