Quero ser e não estar.
Estar sozinha é diferente de ser sozinha. Solidão e multidão nem sempre são antônimos. Absurdamente os opostos se atraem. E eles definitivamente se traem.
Hoje estou cercada de pessoas, todo o tempo e o dia todo. E estou só. Estou sem. Vazia. Carente de tudo e cheia de nada.
Todas as nuvens negras que sobrevoam o meu pensamento resolveram criar um motim, uma rebelião, um pacto e virei refém de mim mesma. Não exijo resgate. A escuridão cercou meu coração, cobriu a minha mente e escureceu minha esperança.
A esperança? A última que morre, mas nem por isso é imortal. De repente, em um segundo ela se vai, se perde na realidade. Sabe a realidade, aquela que escolhemos não ver?
Somos cegos a maior parte do tempo. Ou fingimos ser. Tateando e procurando sentir. Sentir é permitido. Sentir demais é errado. O melhor é ficar dormente. Latente. Indiferente. Blazé.
Uma vez que outra conseguimos vislumbrar, espiar a verdade por entre as frestas. E ela não é bonita. É uma espécie de Medusa...uma vez que a olhe diretamente, você fica paralisado pelo medo que ela provoca.
E sabe o que eu vi? Vi a mim mesma. E tenho medo de quem eu sou. Ou me tornei. Ou sempre fui. Eu sempre fui assim? Sou eu, só eu. E não dá para escapar de quem somos. Estamos juntos até o fim, babe.
E não basta, não basto de novo. Não importa o que se faça, diga, demonstre. Sou o que sou, mas não o suficiente. Sou um ‘quase’. Alguma coisa inacabada, esperando definição. Esperando pelo não.
“E tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era.”
C. F. Abreu
