Em seu novo livro, Múltipla Escolha, Lya Luft cita essa frase, que é de seu poeta favorito, o tcheco Rainer Maria Rilke. A frase me deixou curiosa, me fez pensar, mais do que isso, me fez sentir.
Eu iria além, além de uma floresta escura.
Porque a alma alheia pode ser um deserto onde você vaga por tanto tempo, sem encontrar o que procura, sem se encontrar. E você pode caminhar muito, porque teus pés não vão doer, só teu coração será ferido. Às vezes, dentro dessa alma, vivem sentimentos áridos e duros. Cultivar ternura, amor e compaixão pode ser tarefa extremamente penosa ‘num deserto de almas também desertas’.
A alma do outro também é um oceano profundo e calmo, mar morto. Você mergulha e nunca mais vem à tona, vai se afogando aos poucos, respira quando pode, enquanto pode e quando acha que finalmente morreu, se vê deitado numa areia macia (‘sand is overrated, it’s just tiny little rocks’), que te faz sentir que o mergulho foi a experiência mais aterradora que já te aconteceu. E você quer de novo, quer mais, quer sempre.
A alma pode ser um céu de brigadeiro, vanilla sky. Você voa docemente, num ritmo tão lento quanto antigo, e o que acontece lá embaixo já nem importa mais. Por que lá do alto, da imensidão, tudo que você quer é seguir cegamente no embalo das asas que te envolvem, aquecem e protegem. Planar, inevitavelmente, até a queda.
A alma do outro pode estar cheia de lama, de barro, de pedaços de pedra. Pode ser suja e fazer com que você anseie por uma espécie de salvação. Algo que vai te limpar e trazer tua inocência de volta, ainda que ela não seja mais tão pura assim. E aí você descobre que a alma é tão mundana como divina. É tão humana que machuca. É tão humana quanto a sua.
A alma do outro é um gramado verde (cheiro de grama recém cortada) num dia quente de verão. Você fica ali ouvindo o zumbido dos insetos, meio que dormindo e sonhando sonhos bobos, mas sem se importar em acordar, porque o que te espera ao despertar é algo bom. É algo que sem qualquer explicação lógica, te traz uma felicidade insuportável, incomparável. Um êxtase que vem não se sabe de onde, e é tão grandioso que te torna humilde.
Tua alma é deserto, lama, grama. Tua alma é céu, terra e mar. Tua alma é a floresta escura que eu sondei, habitei, explorei e me perdi.

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